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O efeito do Sapo Cururu

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Uma vez pediram-me para falar numa conferência sobre o tópico “Navegando no Admirável Mundo Novo” do voluntariado.

Na sala estavam uma série de gestores de voluntariado profissionais, pessoal do Centro de Voluntariado, voluntários e, claro, os membros eleitos que tinham de lá estar obrigatoriamente visto que adoram ser vistos nestas ocasiões.

Eu dirigi-me a estes grupos individualmente e sugeri formas para que cada um pudesse aprender lições com o passado e se concentrasse em novas estratégias para “navegar” o futuro.

Quando chegou a altura de me dirigir aos políticos na sala, eu projetei uma foto de um sapo cururu grande, feio e gordo – e expliquei que aquela imagem oferecia a melhor analogia que eu conseguia pensar para explicar a forma como os governos, a todos os níveis, se confrontam demasiadas vezes com problemas relacionados ao voluntariado.

Sim – Eu decidi colocar a minha vida nas minhas próprias mãos!!!

Para os leitores de outros países, deixem-me explicar-vos brevemente o problema com os sapos cururu aqui na Austrália.

Nos anos 30 os agricultores que se dedicavam ao cultivo da cana ao longo do extremo norte de Queensland enfrentavam um problema, precisavam de se livrar dos escaravelhos da cana – um inseto nativo que estava a destruir as plantações que eram vitais para aquela parte do país.

Decidiu-se que o sapo cururu, uma espécie nativa da América Central e da América do Sul, seria a solução. Considerando essa decisão, o Governo de Queensland libertou cerca de 100 sapos em 1935.

Os sapos cururu reproduziram-se prolificamente e rapidamente se espalharam pela Queensland – e depois para o New South Wales, o território do Norte, e agora até para a Austrália Ocidental! De facto, eles reproduziram-se tão bem que se estima que existem, atualmente, cerca de 200 milhões!!!

A ideia da introdução do sapo cururu parecia uma boa, rápida e fácil maneira de resolver o problema com os escaravelhos, ninguém pensou muito sobre quais os potenciais efeitos a longo prazo. Hoje, a Austrália tem um problema ambiental muito maior para lidar à medida que tentamos erradicar o que era suposto ter sido uma solução rápida e fácil.

E esse nem é o ponto mais perturbador nesta história.

Não só há milhões de sapos cururu em toda a Austrália, mas estas criaturas expelem um veneno tóxico das glândulas que eles têm por cima da sua cabeça. Isto já provou ser fatal para muito da vida selvagem australiana, para muitas cobras, lagartos e para outras espécies nativas, e ainda por cima a fauna doméstica também parece ser suscetível a este tipo de praga. Em algumas instâncias, as espécies nativas estão simplesmente a ser empurradas para a sua extinção.


E finalmente – aqui está o verdadeiro ponto mais perturbador.

NÃO há provas que o sapo cururu tenha tido qualquer efeito no escaravelho das canas – a razão pela qual a espécie foi introduzida em primeiro lugar!!

OK, então como é que isto se relaciona com os políticos que estavam na sala naquele dia?

Bastante simples.

Eu acredito que no que toca a tomar decisões sobre voluntários e o setor de voluntariado, nós somos vistos demasiadas vezes como um “alvo mole”. Nós parecemos fazer parte de uma sociedade na qual ministros, burocratas, CEO’s e outros (frequentemente mal informados) decisores optam pela “solução rápida”, sem nunca pensarem adequadamente sobre a longo prazo e sobre os impactos não intencionais dessas decisões. 

Aqui têm um pequeno exemplo. Vamos olhar para o atual incentivo que o Governo Federal Australiano está a dar para a reformulação do programa de “trabalho para desempregado” (WFTD) aqui na Austrália.

Enquanto muitos de nós (eu incluído), não consideramos os beneficiários do WFTD como voluntários no sentido estrito da palavra, o governo, ao introduzir este programa, simplesmente anuncia que o trabalho para os beneficiários de apoios sociais, conseguirá ter um papel nas organizações sem-fins lucrativos.

É uma solução rápida. Nós somos um alvo fácil.

Mas quais são os problemas a longo prazo com esta solução?

  • Alguém no governo terá perguntado ao setor não lucrativo se eles realmente precisam de um fluxo enorme de estes chamados “voluntários”?
  • Mesmo que a resposta seja um “sim”, já alguém considerou os recursos extra que as agências de voluntariado poderão precisar para lidar com tantos candidatos novos?
  • Estarão a oferecer recursos adicionais (físicos ou monetários) às agências de voluntariado?
  • Como pode a introdução dos beneficiários do WFTD, que irão coexistir com voluntários de longa data, afetar a cultura de trabalho?
  • Será que a introdução deste grupo WFTD, com os seus requisitos associados, irá desviar os gestores de voluntariado da missão fundamental das suas agências?
  • Como resultado de tudo isto, será que os programas de voluntariado se vão tornar em pseudo agências de colocação para o governo?

E eu podia continuar a acrescentar.

É uma solução a curto prazo que pode, de facto, levar a ramificações de longo prazo no voluntariado – e espero que tenhas percebido o meu ponto de vista.

Há mais um exemplo óbvio.

Há vinte anos atrás não havia um hospital neste país que não tivesse um “mulheres auxiliares” (uma organização sem fins lucrativos geralmente constituída pelas mulheres dos trabalhadores de uma determinada organização). Mas durante os anos 80 e 90, os decisores com medo do risco (maior parte deles nunca fez voluntariado na vida) decidiram que a forma como estas “auxiliares” tinham sido geridas por muitos anos não era suficientemente boa, de tal forma que constituíam um risco incrível.

De repente houve uma série de requisitos que se exigia a estes grupos, algo que incluía o desenvolvimento de políticas e verificações por parte da polícia. Nem lhes permitiam fazer bolos para uma feira de troca a não ser que tivessem a trabalhar numa cozinha certificada e que tivessem também regimes de rotulação semelhantes ao de empresas comerciais.

E no final, tudo ficou tão difícil. 

O que parecia ser uma solução rápida e sensata para garantir que os hospitais não eram postos em risco – teve a consequência a longo prazo de eu, atualmente, conseguir contar numa só mão, o número de hospitais na Austrália que ainda tem um grupo saudável de “mulheres auxiliares”.

E finalmente, há uma outra forma pela qual este efeito “sapo cururu” continua a se espalhar e a mover-se para espaços tradicionalmente operados por grupos de voluntariado. É o que poderia ser melhor descrito como “influência corporativa” – o ato de estes mesmos decisores governamentais estarem a dar as oportunidades de empreendimento social, que têm sido tradicionalmente operadas por grupos de voluntários, a empresas multinacionais. Os cafés e as lojas de presentes dentro de hospitais e museus, são um bom exemplo disto.


Acreditem ou não, a primeira vez que eu escrevi sobre este tópico foi há um década e infelizmente os meus pensamentos da altura parecem ter sido proféticos. De facto, recentemente, eu próprio fui vítima de tudo isto e consigo compreender o quão dolorosa esta experiência pode ser.

Então, é por isso que eu acho que os políticos são pequenos sapos cururu! A necessidade incessante de encontrar uma solução rápida antes de se pensar adequadamente sobre o que os potenciais impactos a longo prazo para o voluntariado podem ser. E como no caso do sapo cururu, esses efeitos podem por vezes ser irreversíveis.

Em jeito de conclusão, depois de eu ter discursado nessa AGM, eu continuei a pensar sobre este tópico, e apercebi-me que eu estava a ser um pouco injusto ao simplesmente visar os políticos com esta analogia anfíbia.

Eu percebi que muitos de nós que lideramos diretamente programas de voluntariado também somos culpados de optar pela opção do sapo cururu para resolver problemas. Deixar de parte problemas dos voluntários no lugar de lidar com a raiz do problema é apenas um simples exemplo.

Então, vamos todos assumir a responsabilidade de fazer decisões bem informadas que tenham o mínimo de consequências negativas possíveis. Nem sempre vamos conseguir acertar, mas ao pensar sobre todas as ramificações possíveis no nosso processo de decisão, com sorte, poderemos acetar mais vezes do que erramos!

Eu adoraria ouvir as vossas opiniões sobre isto. Desça um pouco na página e escreva.